mardi 10 juillet 2007


51. O asceta
Havia um jovem yogue que durante anos realizava o difícil processo de busca através do ascetismo. Certa noite ele percebeu assustado que junto a ele, próximo a um lago, havia uma bela jovem banhando-se nua.
Imediatamente todos os anos de renúncia do desejo não lhe valeram de nada. Seu coração foi tomado pela luxúria e ele se apaixonou pela linda jovem. "Ó magnífica criatura, quem és, e o que faz sozinha nessa floresta? Me deixe presenteá-la, me deixe adorá-la, me deixe compreender e provar da sua essência."
"De que te serviria compreender a minha essência? Você não tem se penitenciado durante todos esses anos, não tem passado fome, não tem se torturado de várias formas possíveis para obter a iluminação? De que te servirias me compreender, me provar, me adorar? Você se desviaria do seu caminho." - disse a jovem enquanto lavava a longa cabeleira negra.
"Por favor, ó linda criatura, me deixe conhecê-la" - implorou o asceta.
"Se queres me conhecer, mergulhe nessa lagoa e experimente a minha essência" - finalmente aceitou a jovem mulher.
O asceta mergulhou imediatamente na lagoa e emergiu como Raquel, a virtuosa, filha do reinado do sul.
Em breve, ao atingir seu esplendor em juventude, ela recebeu do pai o casamento com o filho de outro soberano. Ela então experimentou todas as formas do prazer e do amor, teve filhos e quando seu pai morreu, seu marido assumiu o trono. Anos se passaram e a paz parecia ser eterna no reinado.
Mas devido a uma antiga rixa com o principado do norte seu reinado mergulhou numa terrível guerra. O terrível holocausto final havia deixado um rastro de sangue onde todos os seus amigos, todos os seus parentes, seus filhos e marido, haviam morrido.
Raquel reuniu seus filhos e seu marido numa pira funerária e ateou fogo. Ao ver o crepitar das chamas gritou "Meus filhos, meu marido, todos mortos, para que a minha vida há de servir a partir de agora?" atirando-se nas chamas. Nesse momento Raquel viu-se emergindo das águas do lago como o asceta solitário.
A jovem, que havia acabado de banhar-se esperava-o nas margens enxugando seu belo corpo nu. "Quem é o filho cuja a morte lamenta? Quem é o marido a que chora?" O asceta tomado de confusão e vergonha prostrou-se diante da jovem.
"Essa é a imagem de minha essência. Você provou os meus deleites, adorou minhas belezas, e também sentiu uma de minhas fragrâncias nos corpos mortos e queimados que viu. Nenhum deus pode compreender as minhas profundezas ou conhecer o meu verdadeiro significado."
O asceta prostrado diante da jovem suplicou "Mostre-me mais sobre a sua essência, permita-me que eu aprenda um pouco mais sobre Ti."
"Traga-me um pouco de água para matar minha sede, depois continuaremos a conversar."
O yogue saiu apressadamente rumo ao povoado que havia próximo a floresta para tentar arranjar água para a jovem. Chegando lá bateu na primeira casa que viu pela frente. Veio abrir a porta uma adolescente de beleza incomparável e ele sentiu em seu peito algo que jamais havia sonhado.
"Meu nome é Esther - recebeu a bela adolescente o estranho que batia a sua porta - de onde o senhor vem, está cansado, quer entrar e descansar em minha humilde moradia?"
Meio bêbado de emoção o asceta aceitou o convite e foi recebido alegremente por todos os parentes da adolescente. Esquecendo-se de sua missão o homem permaneceu no povoado em companhia daquelas pessoas maravilhosas. Passado um certo tempo solicitou ao pai da moça a sua mão em casamento. Fato que não foi surpresa para ninguém pois todos já haviam percebido o amor que havia entre ambos.
Casou-se com a moça e veio a ter uma família grande, com três filhos, e a trabalhar na terra, como um lavrador. Depois de onze anos havia se tornado um próspero e adorado comerciante. No décimo segundo ano a estação das chuvas foi extraordinariamente violenta: inundações, alagamentos, colheitas perdidas, e todo o povoado viu-se prestes a padecer submerso frente à eminente inundação.
O ex-asceta juntou sua família e pôs-se a fugir carregando o que podia. Uma mão amparando a esposa, levando na outra dois dos filhos maiores e conduzindo o terceiro sobre os ombros. Ia ás pressas em meio a chuva e a escuridão. Tentava-se equilibrar na lama escorregadia mas a chuva aumentava e ele começava a perder suas forças. Seus filhos choravam, sua mulher gritava, um vento aterrorizante parecia que iria levar a todos.
Tropeçando numa pedra caiu no chão e o filho menor foi-se levado pelas águas. Desesperado soltou-se dos filhos crescidos para tentar agarrá-lo mas já era tarde demais. Ao olhar para trás viu os outros dois afogando-se na violenta correnteza. Não via mais a sua adorada esposa. Desejando morrer deixou-se ser levado pela correnteza e foi jogado inconsciente numa margem em cima de uma rocha. Ao acordar e ver a água lamacenta que tudo cobria, chorou.
"Onde está a água que te pedi?" - disse a jovem enquanto enxugava o belo corpo.
O asceta voltou-se e percebeu sentado junto a bela jovem na beira do rio com um maravilhoso sol os iluminando. Ainda confuso, tentava entender tudo o que havia passado.
"Compreende agora o segredo de minha essência?" - perguntou a jovem.

50. Normas mornas
Um processo meditativo que envolva a sexualidade dentro do tantrismo vai muito além de ritos preestabelecidos, regras determinadas, ou coisas do gênero. É algo que se estabelece e acontece a partir de uma combinação significativa, a partir de um ponto determinado, dentro de uma particularíssima circunstância emocional.
Essa "vivência" tântrica é uma... conseqüência. Uma espécie de produto alquímico do eu com o isso. Onde eu e você, onde eu e o mundo, nos misturamos e nos tornamos únicos. Apesar de tudo o que possa estar ocorrendo.
Pois se há uma pedra no caminho joguemos ela num lago é percebamos a beleza das ondas circulares que se estendem ao infinito. Essa percepção que se estabelece nesse processo é a realidade. É esse agora. E todo esse novo momento que é percebido, todo esse mundo novo que se é visitado não passa do "velho" mundo que conhecíamos, mas que parecia sem graça, meio nebuloso, devido a escuridão. Semelhante a voltar para casa de noite e não localizar o interruptor na parede. Tudo fica meio confuso, tropeçamos em objetos que havíamos deixado no caminho e havíamos esquecido. Mas logo que acendemos a luz... pronto. Fica tudo claro.
É essa claridade que se estabelece num processo tântrico. E toda a nossa percepção se dá a partir de uma nova dimensão - embora em si seja a mesma. Todos os toques, cheiros, olhares, sabores e sensações em vários níveis... purificam-se. Onde percebemos que todos os sentidos estão não mais interpretando, mas sentindo. Onde eles ficam sendo.
E onde está o limite desse processo todo? Em nós. O livre fluir de tudo aquilo que somos, esse sentir, é realizado - ou não - por nossa causa. Nada de traumas, bloqueios, condicionamentos, passado, essas coisas. É apenas uma questão de querer ou não.
Pois esse caminho tântrico é uma forma de processar a vida e suas infinitas possibilidades que somos nós. E tudo aquilo que não nos permitimos realizar, tudo aquilo que não nos permitimos curar, é um pedaço de nós mesmos que está sendo negligenciado. É um perder o contato com uma parte que continuará ali de alguma forma "reclamando" seu espaço. É gerar desnecessariamente uma divisão. Uma divisão em nós mesmos.
Porque estando realmente nesse processo geraremos o contrário, perceberemos partes nossas que não sabíamos que existiam. Visitaremos lugares que não sabíamos que estavam ao tempo todo a nossa volta. Sentiremos de forma nova e lúcida toda essa irrealidade maravilhosa que nos forma. Criar é descobrir e descobrir é curar o que se encontrava oculto. É ser, estar, comungar, é amar. Criar é Amor. Criar é não morte.
Somos o único tipo de animal do planeta que pode recriar-se. O único que pode perceber que é feito de luz. E o erotismo sagrado é perceber-se vivo em constante mutação, fora dos automatismo e condicionamentos embrutecedores e emburrecedores. É nos transformarmos a todo o momento nos filhos de nós mesmos, e nos parirmos a cada instante. É utilizar a capacidade de luz e força presente no sexo para sermos. Permanecemos assim sempre grávidos daquilo que podemos ser... cada vez mais. Essa luz convida-nos a fazer o nosso próprio parto. Nós assim somos uma metáfora de Eros, de Dionísio, de Shiva/Shakti.
E se esse "outro" também sou eu, não há impedimento para que esse fluxo não seja. E se esse outro não sabe disso, podemos - caso tenhamos já realizado isso - mostrá-lo. Podemos segurar a sua mão e sorrir. Podemos abraçá-lo carinhosamente. Podemos apenas ouvi-lo. Embora a abertura final caiba a ele.
A partir do Tantra teremos acesso a toda uma integração (motora, sensitiva, afetiva, sexual e divina). E todas essas portas devem ser abertas. Todas essas salas - que nos compõem - devem ser visitadas. A nossa essência, nossa sexualidade, está relacionada com nossa vontade e necessidade de expansão. Liga-se ao movimento, ao fluxo, a ação. Nossa criatividade então será a maneira como isso desdobrar-se-á em nós. A maneira de sairmos desse labirinto depois de nos tornarmos amigos do minotauro. E pela nossas relações, pela nossa afetividade, direcionada ou geral, é que expressaremos esse poder e o recriaremos infinitamente.
A não percepção de todo esse fluxo causará uma série de "nós", (podemos até perceber o trocadilho involuntário da minha parte e a relação do nó enquanto um ponto numa corda, ou seja, uma série de pontos ou uma série de eus onde não me percebo em nenhum deles - embora seja todos ao mesmo tempo) uma série de fantasmas; o não perceber desse fluxo gerará uma certa insensibilidade frente ao mundo, característicos daqueles que são a partir do "tanto faz", "dá no mesmo", "é tudo igual", "não sei, não interessa".
E para o Tantra essa insensibilidade, essa incapacidade de perceber os fluxos, é esse eu em estado de choque que pensa "não há nada que eu posso fazer, eu sou assim e ponto". Petrificado e congelado - com medo. É o tradicional "deus me fez assim". Sim, o deus me fez...o "assim" é por minha conta. Mas toda essa petrificação tenderá a aumentar. Todo esse estado de desequilíbrio irá conquistar, pouco a pouco, todo o nosso terreno - interno e externo. Minará aos poucos o corpo e a mente.
O pesquisador Gary Schwartz concluiu um estudo em Harvard onde ele percebeu que pessoas que costumam ter muitas dores de cabeça, freqüentemente apresentam um alto índice de tensão na musculatura facial decorrente de um elevado índice de tensão no organismo como um todo. Vejamos a relação entre pessoas tencionadas, pessoas que se reprimem, pessoas que se contraem e o seu oposto, pessoas que se... expandem. Assim como também as pessoas classificadas como "repressoras" podem ser mais suscetíveis a contrair doenças, como asma, pressão alta e gripes.
Cada vez mais então esse processo de auto-sabotagem se espalhará e nossa capacidade de fluir, de se relacionar, de ser, será comprometida cada vez mais. E no final deixaremos de sentir todo o significado, deixaremos de perceber toda fragrância, deixaremos de nos banhar nesse fluxo cósmico e não saberemos mais o nosso lugar na existência.
Francisco Varela chama o sistema imunológico de segundo cérebro, pois ele, assim como o sistema nervoso, é capaz de recordar, aprender, e assim se adaptar num sentido fisiológico. E a interação harmônica entre mente, sistema nervoso e sistema imunológico fornece a "base" para a influência das emoções sobre a saúde.


49. O espelho
“Todas as coisas são apenas o que são” – afirma Murilo Nunes de Azevedo. Assim através do Tantra percebemos a existência da forma que ela é. E percebemos isso através de nós mesmos. E é preciso gerar o caos dentro de si para dar a luz a uma estrela – diria Nietzsche. E é esse o treinamento básico do Tantra. O caos. O abalar das convenções e das noções preestabelecidas, as noções de tempo e espaço, as noções de bem e de mal, de moral, de certo e errado. Tudo isso é então examinado para que se possa "perceber" sobre qual terreno esses conceitos estão assentados. Contudo convencionalmente a maneira de percebermos e de distinguir entre certo e errado é levarmos em conta o sentimento alheio.
Mas quem é aquele que em mim Goza? Quem é aquele que em mim sente dor, dorme, defeca? Quem é aquele que percebe essa terceira pessoa que pode ir se desdobrando para trás até mergulhar no Vazio? E o que sustenta esses agregados que me formam? De onde vem essa energia que eu devo trabalhar num ritual tântrico? E que brilho é esse que percebo no olhar da mulher que representa todas as estrelas e deusas, mesmo sendo uma só? Mesmo sendo um simples cadáver ambulante, que aspiração é essa que nos faz seguir em frente a procura de respostas? Mesmo sendo um saco de ossos, porque nos emocionamos ao olhar o céu estrelado de uma noite de outono sem luar?

48. O encontro de Shiva e Shakti no lótus de mil pétalas

Deus é Amor
(Jesus, o Cristo)
Desde o paleolítico são realizados festivais sagrados onde a sexualidade é utilizada como uma desencadeadora de forças cósmicas e telúricas. Encontramos entre os gregos práticas religiosas que envolve o sexo. Entre os egípcios os ritos Tifonianos procuravam despertar os iniciados através de orgias e rituais sexuais sagrados. E na Índia, desde os tempos pré-védicos, o maithuna é conhecido; mas é somente dentro do tantrismo que ele se transforma em instrumento de salvação.
A iconografia tântrica dos casais divinos, das inumeráveis formas de Budas e suas consortes, constitui o modelo típico do maithuna. Tem-se a imobilidade do deus e toda a atividade é realizada pela deusa. O espírito sereno em meio ao jogo cósmico. Através do maithuna, falando de forma resumida, controla-se a respiração e trabalha-se a concentração, a retenção, e o objetivo final é a transformação completa do casal humano no casal divino. Não se trata mais de sexo. Pois caso bastasse o coito em si, todos os asnos e todos as coelhas do mundo já teria realizados o seu estado búdico potencial.
A amante então sintetiza toda natureza feminina; ela é a mãe, a irmã, a esposa, a filha, a prostituta, a assassina - de sua voz exala o amor. Dessa união ritualística e mística nasce a unidade de emoção, a experiência paradoxal do eu sou você.
Nesse ponto é importante mencionar duas vertentes básicas dentro do tantrismo tradicional: os samayin, que veneram Shiva e Shakti e trabalham para despertar a kundalini através de práticas psicofisiológicas, e os kaula, que adoram kaulini (a kundalini) e trabalham em ritos de forma concreta.
Contudo, como já foi mencionado, dentro do Tantra existe toda uma linguagem rude, brutal e explícita que é usada como armadilha para os não iniciados. “Pelo mesmos atos que fazem queimar certos homens no inferno durante milhões de anos o tântrico e a tantrika obtêm sua eterna salvação” – avisa Indrabhuti. As mulheres são os deuses, as mulheres são a vida, as mulheres são o adorno. Deves estar sempre em pensamento entre as mulheres, diria o Buda. Radha é concebida como o amor infinito que constitui a própria essência de Krishna. E aquele que chega a compreender a verdade do corpo compreende a verdade do universo.
Nesse sentido empregamos a conjunção dos contrários para efetuar a ruptura do nível comum e redescobrir a espontaneidade primordial. Mas “o Tantra não é leite para crianças” – adverte Julius Evola. E quando o homem tornou-se bípede e ficou em pé, perdeu o olfato, afastou-se da terra, perdeu esse contato básico. E só o sexo pode devolver ao homem o sentido e o gosto dessas origens; só esse "deixar-se levar", esse transe, pode restabelecer esse contato perdido.
O domínio absoluto dos sentidos é necessário para que essa mística seja realizada. Pois a retidão por parte do homem é condição básica para que o ritual seja realizado. Ao mesmo tempo em que a “volúpia” exerce o papel de veículo, proporcionando a máxima tensão que suprime o estado normal de consciência e dá acesso ao estado nirvânico, os textos repetem de forma ininterrupta que “o sêmen não deve ser derramado”.
Pois a Unidade é percebida através da imobilização dos três estados: da respiração, do pensamento e do sêmen. Buscando assim a unificação dos contrários; Sol e Lua, Shiva e Shakti, Ida e Pingala. E numa análise mais profunda lemos o maithuna como uma morte iniciática, uma experiência de morte e ressurreição. O tântrico é um duas vezes nascido.
Mas assim como a natureza não pode ser vista em oposição ao espírito e sim como uma manifestação viva da própria realidade, que abarca a consciência, Shiva e Shakti se diferem apenas a partir do conceito que se faz deles, pois são a mesma realidade no nível absoluto da existência.
"Apesar do isso poder ser apontado com palavras, a realização em si não é um caso de pensar sobre o mecanismo das palavras. Ainda assim, em dependência destes símbolos verbais, o isso da própria mente pode tornar-se manifesto; - diz Khetsün Sangpo Rinpoche - quando ganhamos a iniciação e a transmissão da instrução quintessencial, e então nos retiramos para um lugar solitário, podemos ter estas experiências. Os preceitos não entendidos quando lidos nos livros são compreendidos imediatamente para alguém que então esteja procedendo na base do conhecimento interno. Então, quando morrermos, será como um retorno à nossa mãe, sem a menor preocupação."


47. Sobre a Luz
A necessidade de um mestre é enfatizada em todas as tradições iniciáticas. Dentro do Tantra ele é de vital importância. Existem mestres presentes em diversos níveis, mas normalmente as pessoas necessitam de um mestre que possam ver, tocar, um mestre de carne e osso. Contudo a partir de um determinado ponto de vista todos podem ser nossos mestres. O porteiro de nosso prédio, o motorista da frente num trânsito engarrafado, nosso chefe no trabalho. Pois com esses "mestres" aprenderemos a trabalhar novamente aquilo que muitas vezes havíamos trabalhado através de uma prática sagrada ou psicológica e que achávamos já estar "imunes", processos internos que achávamos ter resolvido ou neutralizado; com nosso porteiro podemos aprender a trabalhar a nossa compaixão, com um motorista desconhecido num trânsito podemos aprender a trabalhar a nossa paciência, com nosso chefe podemos aprender a trabalhar nossa raiva.
Pois no mundo atual um mestre é cada vez mais raro. Verdadeiros mestres de "carne e osso" são difíceis de encontrar e normalmente aqueles que são tidos como tal, não o são. E se um Dalai Lama, uma Pema Chöndrön, uma Machik Labdrön ,um Sogyal Rimpoche, um Padma Santen encontram-se fora de alcance, utilizemos aquele porteiro, aquele motorista, aquele patrão, para nos por à prova. Muitos mestres também trabalham em silêncio evitando a exposição pública. E muitos colocam panfletos em lojas esotéricas e anúncios em jornais.
Dentro do tantrismo budista encontramos uma série de mestres onde podemos nos espelhar, ou simplesmente reverenciar em silêncio. Temos Jetsün Mila - ou Milarepa. Nasceu em berço de ouro, mas após a morte do pai - quando ele ainda era criança - teve todos os bens da família roubados por seu tio, deixando ele, sua irmã e sua mãe sem nada. Para se vingar começou a aprender magia negra, ainda jovem, e depois de dominar vários poderes ele fez cair sobre a casa de seu tio uma chuva de granizo matando dezenas de pessoas.
Impactado com essas mortes Milarepa entrou num estado de profunda reflexão e percebendo seu erro resolveu procurar um mestre que pudesse ajudá-lo a se livrar desse karma negativo. Depois de passar por vários mestres, Milarepa ainda não havia conseguido progredir. Foi então aconselhado a procurar um grande mestre conhecido como Marpa. Ao mesmo tempo, Marpa e sua esposa tiveram um sonho auspicioso onde perceberam a chegada do discípulo.
Depois de muito caminhar a procurá-lo, Milarepa encontrou-o arando um campo nas redondezas de sua casa. Milarepa de imediato não sabia que aquele homem era Marpa, mas no instante que o viu seus pensamentos convencionais se dissiparam. Mais tarde quando foi levado a presença do mestre, Milarepa prostrou-se aos pés dele e lhe implorou para que lhe ensinasse o Caminho.
Marpa respondeu que a iluminação dependeria unicamente de sua própria perseverança e determinou uma série de tarefas quase impossíveis para Milarepa realizar. Mandava-o fazer e desfazer continuamente várias tarefas alegando motivos absurdos para desfazê-las, como que estava bêbado ao ordenar a missão ou ainda alegar que nunca tinha pedido nada daquilo que o discípulo havia feito.
Por fim Marpa ordenou que Milarepa construísse uma torre de nove andares. O discípulo passou por tremendos sofrimentos para realizar o que o mestre lhe havia solicitado, carregando sozinho imensas pedras. Ao terminar Milarepa perguntou a Marpa se agora seria possível que o Caminho lhe fosse mostrado. Marpa respondeu-lhe: "Você acha que é assim tão fácil adquirir os conhecimentos, só porque construiu essa torre? Esta enganado, você tem de me presentear com uma taxa de inscrição!"
Milarepa não possui mais nada a essa altura. Vendo-o nesse estado, a esposa de Marpa lhe presenteou com um saco de cevada e um rolo de tecido. "Vá, dê isso ao meu marido como pagamento de sua taxa de inscrição." Milarepa aceitou e levou os presentes para serem dados a Marpa. Colocou-os junto com os presentes dos outros estudantes e prostrou-se aos pés do mestre. Mas imediatamente ouviu a voz de trovão de Marpa dizendo que aquilo tudo que estava sendo oferecido a ele por Milarepa era dele próprio. "Essa coisas são minhas, você está tentando me enganar?" E expulsou Milarepa do círculo de iniciação.
Milarepa havia perdido toda e qualquer esperança de conseguir obter as iniciações. Desesperado resolveu suicidar-se. Nesse momento Marpa apareceu e lhe revelou que agora ele estava preparado para receber o que havia pedido. Pois todas as expectativas haviam sido destruídas junto com todas as possibilidades de receber alguma coisa sagrada. Milarepa retirou-se numa caverna e após anos de meditação iluminou-se e percebeu todas as realizações comuns e sublimes.
"Milarepa disse ao seu supremo discípulo Gampopa, nos conta Khetsün Sangpo Rinpoche, que recebeu todos os seus ensinamentos, que ao partir lhe concederia sua instrução final e quintessencial. Gampopa sabia que Milarepa tinha lhe transmitido tudo o que ensinava, como se tivesse despejado a água de um pote para outro, e ficou surpreso sobre o que poderia ser esta doutrina mais profunda. Depois, quando estava para partir, ele lembrou Milarepa sobre esta instrução final. Milarepa disse, "Ó, sim, é isto", e puxou seu manto, revelando que suas nádegas estavam como as patas de um animal por ter ficado sentado durante muito tempo em um chão de pedras, sem uma almofada. Ele falou: Meu atingimento da grande realização vem disto. Você precisa deste esforço, não de qualquer outra doutrina. Esta é a essência do meu ensinamento. Se você vai se tornar um Buda ou não, depende do esforço. Com ele, não há dúvidas quanto à sua liberação. Como um filho, faça o que o seu pai lhe diz."
hökyl Lodrö, ou Marpa, foi o principal discípulo de Naropa. Filho de uma família de agricultores, desde cedo escolheu dedicar-se às buscas sagradas. Estudou sânscrito, tibetano, e vários outros idiomas. E rapidamente começou a ganhar muito dinheiro como erudito.
Nessa altura resolveu viajar à Índia, estudar e traduzir textos sagrados importantes e se estabelecer como um grande erudito. Depois de meses, Marpa e um amigo cruzaram os Himalaias e chegaram a Índia. Separam-se e como cada um deles possuía um grau de erudição respeitável decidiram procurar os grandes mestres por si só. Combinaram de se encontrar num determinado vilarejo para retornarem juntos ao Tibete.
Como Marpa tinha o conhecimento de onde morava um grande mestre, imediatamente foi ao seu encontro. Decepcionou-se ao chegar e se deparar com uma casa humilde em meio a floresta. Acostumado com a pomposidade dos eruditos estranhou o fato mas imaginou que essa era a forma que viviam os grandes mestres da Índia.
Deu-lhe a maior parte do ouro que havia trazido, contou-lhe sua estória e solicitou que lhe fosse ensinado o Grande Conhecimento. Naropa concordou com tudo, recolheu o ouro e começou a lhe passar o que havia sido solicitado. Depois de um certo tempo, Marpa achou que havia acumulado bastante erudição e retornou rumo ao Tibete. Encontrou o amigo no local combinado e mostrou-lhe o que havia conseguido. O amigo desabou a rir, e lhe disse que aqueles ensinamentos já haviam sido traduzidos e eram considerados elementares. Disse que se surpreendia por Marpa não conhecê-los.
Frustrado, conturbado e furioso, Marpa decidiu voltar até a cabana de Naropa e lhe solicitar ensinamentos mais valiosos. "Lamento, mas para receber esses ensinamentos você deve encontrar um homem chamado Kukuripa" - informou-lhe Naropa para surpresa de Marpa.
Desesperado por não conseguir o que necessitava Marpa resolveu procurar o tal homem que vivia no meio de uma lago envenenado. Atravessou condições diversas mas chegou até o seu destino. Ao chegar na ilha onde Kukuripa morava encontrou apenas um velho indiano que vivia em meio a sujeira cercado por centenas de cadelas iradas. A situação era bizarra. Ainda assim Marpa se dirigiu ao homem. Obteve como resposta frases sem sentidos e gestos aleatórios sem significados.
A situação ia ficando cada vez mais insustentável, pois além de não conseguir se comunicar com o homem, para perguntar-lhe se ele conhecia o tal de Kukuripa, tinha de estar constantemente atento para com as cadelas iradas. Quando conseguia fazer amizade com uma delas, outra ameaçava lhe morder, outra latia, para o desespero total de Marpa.
A situação se prolongou por vários dias e quando a saúde mental de Marpa estava por um fio, o velho homem que era Kukuripa começou a lhe ensinar o que ele desejava. As cadelas o deixaram em paz e ele recebeu os ensinamentos.
Depois de um tempo estudando com Kukuripa, Marpa retornou à Naropa que lhe aconselhou voltar para casa e ensinar. Encontrou o seu companheiro esperando-o no vilarejo e juntos retornaram ao Tibete. Como Marpa havia ficado em silêncio o tempo todo, seu companheiro começou a imaginar que o amigo havia conseguido um ensinamento valiosíssimo e que por isso não queria nem comentar nada a respeito. Aproveitando um momento de distração de Marpa, seu companheiro fez uma manobra brusca com o barco e todos os ensinamentos que Marpa havia conseguido caíram no rio.
Com esse enorme sentimento de perda Marpa voltou ao Tibete. Havia aprendido tanto mas não tinha nenhum texto para provar a veracidade de suas afirmações. Apesar disso, passou vários anos trabalhando e ensinando. Depois de um tempo percebeu que todos aqueles textos na verdade eram inúteis. Pois a sabedoria que havia conseguido estava presente em tudo o que havia passado durante a viagem - e não nos textos em si.
A partir daí Marpa perdeu quase todo o interesse de tirar proveito dos ensinamentos. Nem preocupava-se mais em ganhar muito dinheiro ou em obter muito prestígio. Sentindo-se inspirado em atingir a iluminação resolveu voltar a Índia. Juntou muito ouro em pó e partiu novamente em busca de Naropa.
Nesse novo encontro porém Marpa assustou-se com a quase total indiferença do mestre a seu respeito. As primeiras palavras que ouviu foi: "Prazer em vê-lo novamente, mas quanto ouro você tem para pagar pelos meus ensinamentos?". Embora Marpa tivesse uma grande quantidade de ouro ofereceu a Naropa apenas a metade do que tinha, pois queria guardar o resto para qualquer eventualidade que surgisse na viagem de volta. "Isso, não é nada, Quero mais!" - respondeu Naropa para a surpresa de Marpa.
Marpa deu-lhe um pouco mais. A barganha continuou até Naropa desatar a rir e dizer: "Você acha que pode comprar meus ensinamentos com esse embuste?". Nesse ponto Marpa entregou todo o ouro que havia consigo. Para seu assombro e desespero Naropa pegou todo o ouro e jogou pelo ar sendo ele levado pelo vento.
Os sentidos de Marpa pareciam começar a falhar àquela singularidade de comportamento com o seu ouro, que havia conquistado com tanto trabalho, o deixou em ponto de enlouquecer. Então ao ouvir as palavras do mestre "Que necessidade tenho de ouro? O mundo todo é ouro para mim!". Houve um momento de abertura na mente de Marpa. Tudo parecia ter se tornado claro. Permaneceu então com Naropa e recebeu então o Conhecimento através de um intenso trenamento.
Naropa (1016 - 1100) era um renomado erudito e possuía os selos dos sutras, tantras e vinays. Era abade do mosteiro Nalanda - um dos maiores de sua época. Era praticamente imbatível nos debates e poucos ousavam empreender uma contenda com ele. Porém essa profunda intelectualidade mascarava a sua não percepção total dos ensinamentos. Um dia uma mulher medonhamente feia apontou para ele e lhe perguntou: "O que você está estudando?". E ele respondeu: "Estudo o Guhyasamaja Tantra". "Você consegue ler as palavras?", continuou a velha. "Sim", respondeu ele.
A velha mulher muito feliz começou a dançar. Então Naropa completou: "Não somente posso lê-las como entendê-las também." Nesse momento a mulher parou de dançar e desatou a chorar. Assustado Naropa perguntou o que havia acontecido e a mulher lhe respondeu que somente seu irmão Tilopa poderia conhecer o significado das palavras.
Ao ouvir seu nome, Naropa sentiu um grande ímpeto desconhecido de procurá-lo. Após meditar sobre a divindade Chakrasamvara recebeu das dakinis a orientação de onde encontrar Tilopa. Percorreu por vários meses regiões austeras e íngremes, passou frio e chuva e não conseguia encontrá-lo em lugar algum.
Perguntou enfim a um camponês que encontrou pelo caminho se ele o conhecia. O velho homem disse que não conhecia nenhum mestre chamado Tilopa, mas que havia um mendigo do mesmo nome que vivia numa região de difícil acesso. Naropa não tinha o que perder e foi até o local indicado pelo velho homem.
Ao chegar encontrou um velho de aspecto louco sentado em frente a um tonel de madeira, cheio de peixes, uns vivos outros não. O velho homem comia os peixes como um cachorro velho esfomeado. Naropa prostrou-se em sua frente e solicitou que fosse aceito como discípulo. O velho homem olhou assustado para ele e disse: "De que você está falando? Não vê que sou apenas um mendigo?" Naropa insistiu tanto que foi aceito.
Tilopa não comia os peixes por estar com fome, mas sim para liberá-los de seus karmas, já que os peixes (assim como as galinhas) são completamente ignorantes do que fazem ou não, criaturas com muitas ações negativas. Ao comê-los ele realizava uma ligação com a sua consciência e os libertava para irem para o paraíso dos peixes.
Devido aos seus apegos conceituais Naropa não encontrava-se preparado para receber os ensinamentos e foi trabalhado duramente por Tilopa. Certa vez foram até uma torre de nove andares onde Tilopa perguntou: "Há alguém que para obedecer as ordens do mestre possa pular daqui?". Naropa entendeu o recado e pulou. Seu corpo espatifou-se no chão. Tilopa desceu da torre e lhe perguntou: "Você está sentido dor?"
"Não apenas dor... eu não passo de um cadáver." Tilopa através de seus poderes curou Naropa para que continuassem a sua jornada. Outra vez Tilopa com fome pediu comida ao discípulo que por não ter conseguido pescar nada foi mendigar comida para seu mestre. Foi ajudado por um grupo de lavradores que ofereceram um pouco da sopa que haviam feito, para Naropa dar à Tilopa.
Satisfeito com a felicidade de Tilopa ao comer a sopa, Naropa resolveu voltar e pedir mais. Ao chegar no acampamento os lavradores já haviam voltado para lavoura mas haviam deixado a sopa dentro do caldeirão nos restos das brasas da fogueira. "A única coisa a fazer é roubá-la." Pensou. Os cachorros do acampamento o denunciaram e ele foi espancado quase até a morte.
Novamente seu mestre o curou e eles voltaram à estrada. Numa certa tarde Tilopa lhe disse "Preciso de muito dinheiro". Sem entender o que seu mestre poderia fazer com muito dinheiro Naropa foi tentar arranjá-lo, tentou sem sucesso assaltar um homem rico mas foi novamente espancado até a morte. Tilopa chegou até ele e perguntou "Você está sentindo dor?" Recebeu a mesma e óbvia resposta, curou-o e os dois continuaram a jornada.
Durante aproximadamente doze anos, Naropa passou por doze provas maiores e doze menores. Processo que visava purificá-lo de seu forte apego a conceitualidade. Numa manhã enquanto montavam um acampamento, Tilopa pediu para que Naropa pegasse água para ele. Disse que ficaria ali para fazer uma fogueira. Quando o discípulo chegou com a água o mestre saltou da fogueira que estava fazendo e segurou a cabeça de Naropa com a mão esquerda.
"Mostre-me sua testa" Ordenou o mestre. Com a mão direita Tilopa pegou sua sandália e bateu na testa de Naropa, que caiu inconsciente. Ao voltar a si, todas as qualidades e sabedorias de seu mestre tinha surgido em sua mente. Os dois tornaram-se um só em realização.
Drukpa Kunley (1455-1570) pode ser classificado entre os sábios loucos. Atingindo a iluminação cedo, sua vida de 115 anos fluiu por um processo espiritual de caráter "anárquico". Trocava seus ensinamentos por cerveja, andava quase sem roupa entoando poesias (iniciáticas que são até hoje estudadas), realizava milagres e se colocava como um incessante questionador dos sistemas religiosos tradicionais. Era um grande yogue, no sentido verdadeiro do termo. Sua capacidade de perceber além da forma fazia com que ele conseguisse ver a potencialidade que havia em diversas mulheres (pela percepção dos sinais das dakinis) e a partir daí, fazer com que elas se iniciassem dentro do tantrismo e se iluminassem. Ele chegou a iluminar cerca de 5.000 mulheres, de diversos níveis sociais, através das práticas tântricas. É importante ficar atento à má compreensão que "nós" ocidentais com nossa tradição judaico-cristã venhamos a fazer com relação a esse ponto. Pois embora tenha havido muito sexo em sua vida, era sempre no sentido de libertar espiritualmente as mulheres com quem fazia amor. De certa forma poderíamos rever essa frase... não havia sexo em sua vida, havia Tantra.
Além desses mestres do passado existe dentro do budismo tibetano várias linhagens de mestres altamente qualificados. Zimmer, então, nos diz: "O grande paradoxo do budismo é que Buda jamais existiu para iluminar o mundo com ensinamentos budistas. A vida e a missão de Sidarta Gautama, o Shakyamuni, é apenas uma incompreensão geral por parte do mundo não iluminado".

46. Paradoxo
Mas o que é necessário para que nos transformemos? O que é preciso para que essa irracionalidade seja transmutada? Poderíamos começar ao perceber que a pobreza exterior se reflete na interior, que as fronteiras, que a ganância, que o fanatismo, geram um estado interno de medo, mesmo naqueles que não são afetados diretamente por elas. Mas a pergunta continuaria: o que leva à essa pobreza, à essa necessidade de fronteiras, à essa ganância, à esse medo? Para o Tantra é a mente ordinária que cria tudo isso através do eu.
"Para haver riqueza tem de haver pobreza" - costumava afirmar um conhecido meu. Mas se trataria apenas de uma questão de puro condicionamento externo? Seria apenas uma questão de modelo de mundo apoiado na tradição (já ultrapassada) de Darwin onde o mais forte sobrevive? Haverá alguma coisa no "interior" do homem que se alimentaria desse horror?
Para a construçao que convecionamos chamar de Eu, não interessa a compreensao dessa questao. Para "mim" muito, para o "outro" a sobra (se houver sobra). E quando o Tantra solicita, perceba, ele procura fazer com que esse processo seja estancado. E quando utiliza uma linguagem rude, cruel e explícita, ele tenta dar um curto circuito nesse processo condicionado.
E por fim esse "eu" achou um maravilhoso estratagema para se manter imune de ataques. Criou a noção de que através de uma luta, de um processo, de um esforço, ele própria poderia ser aniquilado.
E esse "eu" sentou-se tranqüilo, bebendo seu chá das cinco, a ver toda uma série de religiões, filosofias, seitas, credos e partidos lutando para tentar aniquila-lo.
Por vezes assustou-se, quando alguns deram a outra face ao inimigo (sem qualquer relação de tempo incluída no ato), ou quando outros cortaram de um só golpe a propria cabeça (também sem qualquer relação de tempo no ato). Mas posteriormente voltava a ficar tranqüilo ao perceber que esses atos não tinham muita continuidade.
E assim as necessidades imaginárias, ilusórias, dominam todas as outras necessidades, como a necessidade de apenas ser, por exemplo.
No tantrismo budista encontramos uma boa forma de dar um curto circuito nesse processo, nesse meu, nesse mim, nesse eu: a compaixão.
No ideal do Bodhisattva, o objetivo fundamental de toda a vida é servir o outro. Esse ideal divide-se em seis estados: generosidade, sinceridade, paciência, entusiasmo, meditação e sabedoria. A compaixão é essencial no estágio inicial, no estágio intermediário e no estágio final desse "desenvolvimento" espiritual. Percebam o quanto isso pode ser subversivo! Leia essa frase na primeira pessoa: o objetivo fundamental de toda minha vida é servir o outro. Pode dar até um desconforto. "Como assim, servir o outro... que espiritualidade há em me transformar no serviçal de alguém?". Percebam o curto circuito que isso pode dar na mente, no mim, no eu. E percebam como o mundo seria diferente se todos ajudassem a todos. Nirvana. Paraíso. Vahala. Como diria Milarepa na canção de Drugpa Künleg: incapaz de amar todos os seres como seus filhos, de que adianta as solenes preces e rituais?
Dentro do Budismo Tântrico encontramos que o conhecimento e o entendimento se desenvolvem baseados em uma consciência que possua a capacidade de perceber claramente seus objetos; quando essa base é suprida a capacidade por sua vez aumenta mais ainda, o alcance dos objetos de conhecimento expande-se e a sabedoria se aprofunda - a partir daí desenvolve-se o infinito atual.
Também dentro do Tantra budista encontramos uma prática meditativa bastante forte e muito útil se desejamos dar um curto circuito nesse eu - a meditação Tonglen. Essa prática visa que nos conectemos com o sofrimento - nosso e o que nos rodeia. Esse método visa eliminar nosso medo da dor, visa eliminar a dureza de nosso coração e despertar assim a compaixão.
Iniciamos a prática recebendo para nós a dor alheia. Recebendo a dor de alguém que sofre e que queremos ajudar. Se uma pessoa idosa, por exemplo, está sofrendo, inspiramos para nós a sua dor e desejamos que ela se libere desse peso e desse medo. Ao expirarmos, enviamos felicidade e alegria à essa pessoa idosa. Esse é o ponto central da meditação: pegar a dor alheia e enviar relaxamento, bem estar, cura.
É uma prática difícil pois normalmente teremos medo. Resistiremos a ela. Nossa mente pensará: "Como assim pegar para mim a dor alheia? Ah, isso já é demais". Driblamos então essa mente e mudamos o foco. Trabalhando em cima de nossa própria dor - seja ela raiva, angústia, impotência, ou até mesmo alguma dor física. Percebamos então essa raiva que nos habita e inspiramos por aqueles que também estão dominados pela raiva e (expirando) mandemos amor para nós mesmo e para aqueles que estão acorrentados por esse sentimento.
Essa é uma prática poderosa pois trabalha com um padrão inverso ao usual. Somos "bons", fazemos "bondade" e esperamos que venha para nós... bondade. Nessa prática realizamos a bondade trazendo para nós a dor alheia. O esquema básico de buscar o prazer e evitar o sofrimento é colocado em xeque. E então toda uma série de padrões bastante arraigados começam a se mostrar mais maleáveis.
A meditação de Tonglen pode ser realizada para todos aqueles que necessitem: para os que sofrem, para os que estão doentes, para os que estão morrendo, para os que já morreram. Tantra é passar por alguém que sofre e perceber-se ali, naquela situação. Através dessa prática podemos ajudar o próximo de uma forma silenciosa e eficaz.


45. Paradigma
Mas como perceber esse infinito atual? Como entrar em contato com esse paradoxo, essa Shakti, que gira em torno do movimento, do tempo e do espaço, que o é. Como perceber e fagocitar a possibilidade do movimento a partir do rompimento da idéia da continuidade e divisibilidade infinita do tempo e do espaço? O tantrismo dá a dica ao mover-se em direção da necessidade de se devorar a divindade - assim como Cronos que cria e engole seus filhos. Comecemos pela figura do mestre. E ajamos de acordo com o ditado tântrico: ao encontrar o mestre, mate-o! Mate o eu, elimine o tempo. Seja.
Mas como fazer com que essa mente, que é a base desse eu, possa ficar livre do tempo? Como nos transformar em assassinos do tempo? Comecemos por parar... aqui e agora.
Comece pelo pessoal: meus apegos, minhas mágoas, meus projetos. Indague via percepção: mágoa, o que é isso?, apego, o que é isso?, meu, o que é isso? A percepção disso é o início de seu fim. A percepção desse agora é o início da morte do tempo.
O que encontra-se magoado é uma "imagem" que criei de mim mesmo numa determinada época e onde depositei uma determinada energia contendo dinamismos dolorosos classificados de mágoa. Essa imagem além de ter o prazo de validade vencido, não é.
E o pensamento é uma fábrica de imagens, que são colecionadas e utilizadas pelo eu na medida de uma circunstância ou necessidade. É como uma troca de roupa. Estou triste, quase chorando, alguém que amava se foi, ou algo parecido, uma pessoa chega e me dá uma carta onde está escrito que acabei de ser premiado com um milhão, instantaneamente um sorriso nasce em meu rosto, pulo de alegria, sou agora um milionário. Onde foi parar a tristeza? De onde veio essa alegria?
Meu eu simplesmente tirou de seu armário uma imagem de milionário que cabia em minha silhueta e guardou a que eu usava, a imagem de homem triste. Mas o que mudou? E o mais importante, o que continuou igual?
Mas novamente é importante estar atento e não deixar o tempo entrar sorrateiramente pela porta dos fundos. Não se trata de nenhuma "transformação". Não se trata de "isso" se "transformar" naquilo, isso evoluir para aquilo. Não é uma questão de "progresso espiritual"... termo bisonho e contraditório, pois se é progresso, envolve tempo, então não suporta o espiritual; e se é espiritual, está além do tempo e espaço, então progresso deixa de ter sentido.
Não há tempo, não há separação, não há mágoa. Essa sensação que percebo de dor nesse passado é somente uma duplicação de uma energia que está presente nesse exato momento, fruto do desconhecimento da realidade última, suprema. Esse cálice não deve ser afastado. Seja feita a vontade. A realidade de Mara é a sua ausência. Tudo isso está bem além - embora também o contenha - da esfera do mundo físico.
Durante o extermínio da cultura tibetana pelo governo da china comunista - fato lamentável que se estende há mais de cinqüenta anos - uma série de selvagerias foram realizadas contra o povo tibetano. Pessoas foram enterradas vivas, decapitadas em frente aos filhos, pais foram obrigados a matar os próprios filhos, filhos foram obrigados a assassinar os próprios pais, monges eram expostos ao sol com os intestinos para fora da barriga ainda vivos, monjas foram violentadas e sodomizadas com bastões elétricos, e uma interminável lista de atrocidades foram realizadas pelos chineses que visavam "libertar o Tibete do Imperialismo". Um holocausto de quase dois milhões de tibetanos se inscreverá em nossa história moderna.
E esse cálice não deve ser afastado... Essa, seja feita a vontade. Essa, realidade de Mara é a sua ausência, tudo isso foi realizado por muitos monges e monjas tibetanas durante suas intermináveis horas e diversas formas de tortura. Graças aos ensinamentos do Budismo Tibetano eles puderam, felizmente, aliviar em muito a impressão desses horrores em sua carne. Através de várias técnicas meditativas alguns puderam até ser assassinados pelo governo popular da china comunista em profunda beatitude.
Pois anulando esse tempo, anulamos essa mágoa. Transformando-nos em nada, o que sobra? Tudo. Ao contrário, quando buscamos um "progresso espiritual", ou coisa do gênero, continuamos lutando no que somos, continuamos dando voltas na roda. Então a percepção pelo Tantra desse infinito atual dá-se dessa forma. Instantânea.
Dentro da história da ciência do homem ocidental existem três momentos preciosos onde esse homem acordou, mesmo que momentaneamente: primeiro foi em Galileu, ao tirar a Terra como o centro do universo (dizem que ao se retratar - para não ser queimado vivo - perante a sagrada igreja católica ele mencionou baixinho: mas que ela gira, gira); depois foi em Darwin, que elevou a estória de Eva e Adão à categoria de mito, colocando o homem como um animal (o que ele também é); e por último foi em Freud, ao derrubar o ideal iluminista que via o homem como filho da razão, e anunciar o padrão Inconsciente / Sexualidade como orientadores primários da espécie.
Freud era um cientista, contudo, era também um homem muito supersticioso. A sua análise dos sonhos também pode ser vista como uma extensão de uma técnica oriunda do misticismo judeu, onde os sonhos são lidos. Ele ao estudar as ciganas polonesas que liam as mãos e adivinhavam o futuro, conjeturou que elas na verdade podiam "ler a mente" de seus clientes.
Contudo, Freud assustava-se bastante com as coincidências que aconteciam quando ele e Jung (na época em que ainda se davam) conversavam sobre assuntos ocultos. Barulhos estranhos e estalidos de madeiras eram os mais freqüentes. Posteriormente a psicanálise fez história assim como a psicologia analítica de Jung.
Entretanto esses dois gênios levantaram questões básicas e importantíssimas a respeito somente de uma determinada visão de mundo. Freud descartou o numinoso (talvez por seu medo do oculto) e Jung descartou a sexualidade (pelo menos em sua vida científica pois na sua vida particular a quase totalidade de suas amantes - que eram muitas - eram suas ex-pacientes, ou suas pacientes). Como sempre a questão sexual, a questão do divino, e a questão do saber estavam presentes nas três quedas, de Galileu, de Darwin e de Freud.
Antes de Galileu, Copérnico já havia colocado o sol de volta ao centro do universo (digo de volta porque antes dele, Aristárco o havia feito) - como sabemos o nosso sol encontra-se no centro de nossa galáxia - mas Copérnico o havia feito motivado por razões questionáveis, pois insatisfeito com o modelo de Ptolomeu - que usava o dogma platônico do movimento circular uniforme nos dogmas celestes - Copérnico propôs o abandono do mesmo e a colocação do sol no centro, mas para adaptar essa nova teoria às idéias platônicas ele retornou aos pitagóricos e seu modelo de fogo central. Foi bem posteriormente, com Galileu, que a noção do sol como centro do universo tornou-se fato científico - e não meras conjecturas.
Mas o Tantra vai além e propõe que o sexual é o poder divino (Shakti), que o sexual é conhecimento (Jñana) - não meras conjecturas. Mas um sexual que abole o tempo, e em conseqüência, abole o eu.
Em Galileu o deslocamento da terra como centro do universo e a posterior descoberta de que ela era um pequena "rocha" que girava em torno de uma estrela de quinta grandeza, foi importante para solapar do homem religioso da idade média a sua soberba divina, a sua hipotética e fantasiosa noção de que o homem era o centro, a causa, a origem de tudo (através de deus e da igreja, é claro).
Com Darwin novamente essa soberba religiosa (que ainda existia e que existe até hoje) foi chacoalhada. O homem (também) é um animal. Sua evolução deu-se a partir dos primatas e a costela de Adão foi poupada. Entretanto muitas pessoas religiosas contestam Darwin até hoje - um caso curioso ocorreu na terra de Marlboro, onde um professor, na década de cinqüenta, foi preso por ensinar aos seus alunos a teoria da evolução de Darwin! Lamentável para não dizer patético.
Por fim, Freud deu fim a noção iluminista que o homem era um ser racional. A absurda selvageria que ele viu ocorrer na primeira guerra mundial o fez criar um texto belíssimo onde ele revê essa noção de racionalidade do homem. Pois seres racionais não mandam outros seres (e se esses outros fossem racionais talvez não obedecessem) para morte por uma simples questão de propriedade - o motivo básico de todas as guerras.